23 de agosto de 2012

Jardim de Outono

Sentei no banco de madeira do jardim da sua casa. Jardim que você plantou e cuidou. Chovia muito naquele verão, a casa esteve inundada por alguns dias por uma água de gosto salgado. Todos estavam um pouco inundados. Catástrofes naturais não costumam nos pegar prevenidos. E mesmo que estejamos, nunca estamos o suficiente. 
Quando chegou o outono, as folhas secaram, estavam todas espalhadas pelo chão como numa casa abandonada. Não sabia onde você estava, não me avisou quando voltava. Foi embora pela manhã. Não deu tempo de dizer adeus. Se passaram meses, um ano. Como que por uma afinidade, percebi que estava como a casa. Mas você estava ali. As células desprendidas estavam espalhadas, no ar, na terra, comigo, com as folhas, estava entrando na boca do passarinho agora, e logo estaria em um lugar distante. Estavam em qualquer lugar. Estava completando o ciclo da natureza. 

5 de maio de 2012

Informalidade de um sonho.

Por enquanto apenas sonho. Ainda não adquiri a maturidade perfeita para me virar em qualquer canto do mundo. Na verdade, não sei se realmente existe uma certa idade em que poderia me tornar madura. De acordo com meu ponto de vista (indiscutível), maturidade só se adquire quando alguma coisa dá errada e você passa a tomar cuidado para tentar fazer certo da próxima vez. Mas para isso, você deve errar primeiro, ou aprender com os erros dos outros. 
Pena que a minha mãe não pensa o mesmo. Esse é um dos pontos na qual eu e ela discordamos... A sorte é que não tenho pressa, e quando a hora chegar, o gostinho da vitória será bem mais doce. E sim mãe, eu a entendo. 
Quanto a aprender com os erros dos outros a única história que me serve de experiência, além de algumas que eu mesma já vivenciei (e achei o máximo), são as de Heloisa Schürmann e suas tempestades enquanto dava a volta ao mundo com a sua família dentro de um veleiro chamado Aysso. Que significa formoso, em tupi guarani. (Se isso vale como experiência). Desde então tomei gosto pela coisa, quando ganhei o livro que ela mesma escreveu quando eu deveria ter uns 10 anos. 
Sei lá, enquanto fico sentada tenho a impressão de que estou perdendo um punhado de coisas boas que acontecem nos quatro cantos do mundo. 
Poderia estar escrevendo sobre um monte de coisas que todo estudante pré-vestibulando deveria estar careca de saber. Quase sempre termino o dia sem ter feito a metade das coisas que deveria ter feito e mais uma vez não me conformo que nem sempre as coisas saem perfeitas. 
E é claro, talvez há alguns agora que devem estar me julgando pelo uso de gírias, e por algo tão pessoal e informal (?) Perfeição é algo que eu mesma gosto de me cobrar. E cobro muito. Mas cada momento, tem o sua essência. Tudo em uma dose certa. 
Enfim, pelejo. Enquanto a "maturidade" não se manifesta, ou ela ainda não tenha encontrado uma boa hora para chegar, faço as "malas" aos pouquinhos para que o mundo não me pegue desprevenida.




17 de março de 2012

Vamos embora outra vez.

Vamos embora, que o pior já passou
Vamos embora, eu não sei falar a língua desse povo, eu não sei construir um barco para fugir
Mas vamos embora, que eu tenho pressa e você sabe
Vamos embora, que talvez eu saiba controlar as tempestades
Porque você sabe, já houve tempestade pior e só me restou...
Vamos embora, que talvez não dê tempo de chegar a tempo
Vamos embora, vamos pegar uma carona e construir um veleiro
Mas isso deixa pra depois...
Vamos embora, se tudo der errado, não se esqueça que vamos consertar
E tentar mais uma vez, até que a morte me leve embora
Vamos embora, se você não vai, eu vou.

18 de dezembro de 2011

Vasos Quebrados.



Havia muitas pessoas ao seu redor, falavam demasiadamente sobre muitas coisas. Mas não entendia nada. Estava perdida no seu próprio mundo, de faz de conta, talvez. Tentava consertar vasos quebrados, vasos que ela guardou com o passar do tempo e nunca soube consertar. Ela sabia o que fazer, e por algum motivo nunca o fazia. Não sabia dar novas cores aos vasos, quem diria consertá-los. Tinha a sensação de ser um fragmento pré-histórico, um pedaço de um corpo vazio e distante, deixado em algum lugar do tempo. Ainda estava viva. Sim, ela respirava, ainda respirava. Mas era apenas um pedaço de um corpo mutilado, não sei se vivo ou morto. 

(Imagem de Kurt Halsey Frederiksen)

6 de dezembro de 2011

Pequeno Veleiro.



Estava velejando em um barquinho todo esse tempo tentando segurar as rédeas. Tentando resistir ao impulso de olhar o caminho deixado que era forte como as ondas. 
Alguns que partiram com ela, desistiram de conhecer o mundo e se jogaram em alto-mar. Tentava fechar os olhos para não ver, já estava desabando em lágrimas. Que decepção! Seus olhos ficaram embaçados como vidro enevoado, perdeu a direção do barco por algum tempo, velejou por linhas tortas, colocou a vida de quem amava e restava em risco, fez com que outros desistissem e também pulassem para o mar. Quase fez com que ela, por um instante, desistisse do mundo e largasse o barquinho ali mesmo, perdido na devassidão do oceano até que pudesse encontrar o caminho certo. Mas não desistiu. Tentou controlar as lágrimas, assim como tentou controlar o barquinho no meio de uma tempestade no fim da tarde. 
Que se dane o amor.

6 de novembro de 2011

Poliana.



Poliana se engasgava com lágrimas com a intenção de evitar que elas extrapolassem e chamassem a atenção de curiosos. Sangrava por dentro e quem sente dor não costuma rir. Mas ela ria, e ria alto. Ria da sua própria dor, ria na cara dela.
Não poderia deixar tantas portas se fecharem para sempre na sua frente. Então engolia o passado, o choro salgado e descontrolado, engolia sangue e engolia a chave que havia usado para trancar a sua caixa de recordações. Ainda não foi feita a digestão. Enquanto isso, atravessava portas e trilhava caminhos. Eram muitos. Uma imensidão. Ás vezes se perdia, remetia passos para voltar, mas tornava a seguir adiante outra vez.
Enquanto caminhava por estradas esburacadas, por vezes alguém lhe dizia que o caminho era longo demais, e lhe aconselhava a voltar. Não importa o quão longe seja, a única coisa que desejava era chegar ao seu tão sonhado destino, por mais que seus passos estivessem já trôpegos, por mais que seus pés estivessem machucados. 
Poliana sempre se perdia. Perdia a si mesmo. Os caminhos volta e meia imitavam um labirinto, mas Poliana tentava encontrar o caminho certo, tentava encontrar a si mesma.

13 de outubro de 2011

Árvore testemunha.



Estava andando pela estrada quando olhei para as colinas, e me lembrei de quando ainda éramos um do outro... me lembrei de quando caminhávamos até lá, e ficávamos esperando o sol tímido aparecer. Mas não pense que chegar ao topo da colina foi uma tarefa fácil. Não foi. Mas aquilo era o cansaço mais perfeito que eu poderia sentir. Deixemos de lembranças... elas não vão fazer com que tudo volte a ser como era antes.
Não quis dar o trabalho de subir as colinas, o cansaço não iria ser perfeito. Você não estava mais comigo. E o amanhecer não teria as mesmas cores. Venho aqui, estou só, nada é a mesma coisa.
Me lembrei da árvore, a árvore que continha os nossos nomes gravados. Aquela árvore foi testemunha do nosso amor. Como sou atrevido! Me arrisco a derrubar algumas ou uma porção de lágrimas pela grama. Oh! Me desculpe dona grama! Essas coisas do coração eu não consigo controlar!
Mas vejamos o que interessa, o que sacie a minha curiosidade: a árvore. Eu estive procurando a árvore testemunha quando me ocorreu uma ideia: E se a árvore não mais existisse? Pois como sabes, as árvores também são vítimas do homem! Ela poderia ter sido derrubada, justo ela que foi nossa sombra, justo ela que continha meu nome junto ao seu. Lá está ela! Está viva! A árvore testemunha, um pedacinho do nosso amor, escondida entre as suas amigas, escondida entre as colinas. 
...
Volto para minha estrada... cambaleando, pois minha visão está embaçada, e estou aborrecendo a dona grama com as minhas lágrimas descontroladas. Espero que ao menos ela me entenda e me perdoe...
Estou cansado, e esse cansaço de agora é como uma facada nas costas. 
Queria que isso fosse um pesadelo, e queria ser acordado por você deste sonho ruim.


(Imagem de Kurt Halsey Frederiksen)

5 de outubro de 2011

Agridoce.



Talvez o sabor da lembrança seja agridoce. Agridoce como o teu perfume. Talvez a cor da lembrança seja cor de amêndoa, a cor dos teus olhos. Talvez a sensação da lembrança apesar de agridoce, seja áspera, áspera como era o roçar da tua barba mal feita no meu rosto. Talvez a lembrança seja isso, tenha sabor fundo de mel, mas é áspera como espinhos pontiagudos roçando no peito. Eu preferia o roçar da tua barba mal feita... 

26 de setembro de 2011

Madrugada sabor tempestade.


E eu pensando que havia soprado a tempestade pra longe, mas me parece que o lugar onde ela tenha se assentado não era seguro o bastante, então ela veio novamente ao meu encontro. Certamente pegou carona com o vento. Sim, O VENTO. Ou talvez ela não tenha se assentado em lugar nenhum. Porém agora ela parece ter se acalmado, não quis pousar sobre meus ombros cansados, mas ela veio ao meu encontro, ela está aqui, na minha frente. Pelo que vejo, o meu sopro não foi forte o bastante da última vez que a mandei ir embora. Por favor, vá. Siga o seu caminho. Não me atormente, as nuvens já estão densas demais. 

25 de setembro de 2011

Maldito vento, maldito física e maldita novela mexicana.

Decepções, arrependimento, remorso, saudade, e como acompanhamento de um louco desesperado, vem a vontade de se matar. Toma todos os calmantes que há dentro do fundo da gaveta, sem avisar à ninguém da família que corre risco de morrer por overdose. Então você engole os comprimidos, sente o coração bater mais rápido, começa a suar, e pensa: “Pronto, vou morrer mesmo! Mas eu não quero isso pra mim! Socorro o que que eu faço?!” Daí você assusta a família inteira, recebe uns puxões de orelha, é chamado de desequilibrado, é obrigado a tomar injeções. E começa a perceber que essa não é a melhor ideia para se suicidar, aliás você percebe que não queria se suicidar na verdade.
Depois de algum tempo você supera tudo, não tem mais vontade de se matar e nem mesmo de se automutilar, você percebe o sentido da vida, tem aquela maior vontade viver, e consegue enxergar felicidade até mesmo nos seus defeitos. Que vida bela, cor de rosa, que A-LE-GRI-A! Então os quilômetros decidem me distanciar das pessoas que eu convivi durante muito tempo, ele decidi criar barreiras, e ainda escreve grande na minha testa a palavra saudade. Ok, eu consigo superar isso também, além é claro da saudade de saber que nunca mais poderei ver/ouvir a voz/sentir o cheiro da pessoa que eu mais amo, a pessoa que me levou para conhecer lugares novos, que trazia livros de presente, que deixava eu tomar sorvete com pneumonia, que trazia cookies de chocolate na hora do almoço, que chegava de viagem com a barba por roçar no meu rosto, que me levava para viajar, meu amigo, meu companheiro, a pessoa que me gerou. Você tenta enterrar tudo com blocos de concreto, tenta não lembrar de nada, deixa tudo guardado em uma caixa velha trancada às chaves. Mas o vento, o vento que era meu amigo, meu companheiro, meu refúgio, meu PONTO DE PAZ, decide trazer as lembranças que deixei trancada ás chaves e enterrada com blocos de concreto, mas o vento então (até o vento!), trai a minha confiança, trazendo todas elas de volta como pedra na minha cara, eu me desvio sem sucesso, e ele ainda tem a brutalidade de continuar me esfregando. “Ótimo”. Não consigo me concentrar, não consigo entender física óptica, refração da luz, etc etc etc. Mas ok.
Então você não consegue se conformar que você não pode ser perfeita em tudo, que não consegue nem mesmo guardar os sentimentos e as lembranças que o maldito e traidor vento trouxe. Não consegue se dominar, se sente pisoteado, destroçado e definitivamente acabado com ela. E vêm novamente a involuntária vontade de fazer mais uma novela mexicana de dramas inexoráveis. Se sente um inútil por nem mesmo conseguir dominar ou simular as suas próprias e malditas emoções.
Dá dois passos para a frente, um para trás, dois para frente, e de repente dois para trás, e você avança e dá um passo pra frente, mostrando quem é que manda. Sempre assim. 
É um ciclo vicioso, que irá perdurar durante uma vida inteira. É uma novela mexicana que nunca acaba.